Dubai Telegraph - A dívida em aberto do Peru com milhares de mulheres esterilizadas à força

EUR -
AED 4.307418
AFN 74.465276
ALL 95.514371
AMD 434.805158
ANG 2.098956
AOA 1076.517252
ARS 1632.924699
AUD 1.63146
AWG 2.110818
AZN 2.000339
BAM 1.958015
BBD 2.362405
BDT 143.916949
BGN 1.956145
BHD 0.442832
BIF 3488.713569
BMD 1.172677
BND 1.496214
BOB 8.104758
BRL 5.8438
BSD 1.172942
BTN 111.265701
BWP 15.940191
BYN 3.309913
BYR 22984.465868
BZD 2.35899
CAD 1.595761
CDF 2720.610358
CHF 0.917467
CLF 0.026841
CLP 1056.41748
CNY 8.007214
CNH 8.012421
COP 4283.120034
CRC 533.257925
CUC 1.172677
CUP 31.075936
CVE 110.820711
CZK 24.387515
DJF 208.407834
DKK 7.473288
DOP 69.653797
DZD 155.317785
EGP 62.885146
ERN 17.590152
ETB 184.051848
FJD 2.573438
FKP 0.8693
GBP 0.86326
GEL 3.148634
GGP 0.8693
GHS 13.128074
GIP 0.8693
GMD 86.193962
GNF 10293.173047
GTQ 8.961018
GYD 245.385429
HKD 9.186381
HNL 31.216422
HRK 7.532223
HTG 153.64957
HUF 364.477323
IDR 20314.456628
ILS 3.462293
IMP 0.8693
INR 111.253144
IQD 1536.206647
IRR 1542070.031306
ISK 143.805737
JEP 0.8693
JMD 183.787948
JOD 0.831447
JPY 183.454755
KES 151.48057
KGS 102.515989
KHR 4705.363607
KMF 494.869371
KPW 1055.234051
KRW 1731.099679
KWD 0.360387
KYD 0.977477
KZT 543.287248
LAK 25757.669579
LBP 105091.824025
LKR 374.870911
LRD 215.229122
LSL 19.663076
LTL 3.462609
LVL 0.709341
LYD 7.452334
MAD 10.834021
MDL 20.209331
MGA 4878.335336
MKD 61.632468
MMK 2462.24902
MNT 4195.95468
MOP 9.464495
MRU 46.51419
MUR 55.150846
MVR 18.123687
MWK 2033.883357
MXN 20.513495
MYR 4.656045
MZN 74.939893
NAD 19.663244
NGN 1612.934762
NIO 43.060753
NOK 10.885912
NPR 178.016562
NZD 1.989159
OMR 0.450895
PAB 1.172912
PEN 4.133783
PGK 5.089176
PHP 71.879818
PKR 326.866189
PLN 4.256265
PYG 7213.869599
QAR 4.289774
RON 5.194842
RSD 117.365045
RUB 87.891789
RWF 1714.76447
SAR 4.397808
SBD 9.438387
SCR 16.104338
SDG 704.192833
SEK 10.831019
SGD 1.493486
SHP 0.875522
SLE 28.846643
SLL 24590.442291
SOS 670.304147
SRD 43.926094
STD 24272.042756
STN 24.53016
SVC 10.263619
SYP 129.749748
SZL 19.668182
THB 38.145993
TJS 11.001846
TMT 4.110232
TND 3.423574
TOP 2.823525
TRY 52.987285
TTD 7.961755
TWD 37.058963
TZS 3054.823151
UAH 51.538367
UGX 4410.422704
USD 1.172677
UYU 46.777514
UZS 13998.837394
VES 569.437509
VND 30907.070532
VUV 138.969615
WST 3.180521
XAF 656.747683
XAG 0.015894
XAU 0.000254
XCD 3.169217
XCG 2.113926
XDR 0.818198
XOF 656.11183
XPF 119.331742
YER 279.830029
ZAR 19.572504
ZMK 10555.499773
ZMW 21.904372
ZWL 377.601461
A dívida em aberto do Peru com milhares de mulheres esterilizadas à força
A dívida em aberto do Peru com milhares de mulheres esterilizadas à força / foto: Ernesto BENAVIDES - AFP

A dívida em aberto do Peru com milhares de mulheres esterilizadas à força

Florentina foi esterilizada à força quando tinha apenas 19 anos, um bebê de meses e mal falava espanhol. Três décadas depois, esta mulher indígena pede justiça, assim como outras milhares de peruanas, vítimas de uma prática oficial e "sistemática" denunciada pela ONU.

Tamanho do texto:

Na época, o país estava em meio ao fogo cruzado entre o governo do então presidente Alberto Fujimori (1990-2000) e as guerrilhas sanguinárias da extrema esquerda. Fujimori morreu em setembro de 2024, após ser indultado ao cumprir 16 dos 25 anos de sua pena de prisão por violação dos direitos humanos.

Durante o período em que esteve no poder, em vários pontos do Peru, mulheres sem recursos ou estudos, muitas delas indígenas quéchuas, eram esterilizadas sem seu consentimento.

Tratou-se de uma prática "sistemática", que violou "300.000 mulheres"; uma "forma de violência" de gênero que constitui um crime de lesa humanidade, denunciou, em outubro, o Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher das Nações Unidas, que exigiu do Peru indenização e reparação às vítimas.

Foi mais que um programa de planejamento familiar para impedir que "as mulheres mais pobres se reproduzam", explica à AFP Leticia Bonifaz, que fez parte desta comissão até 2024.

Tratou-se do maior caso de esterilizações forçadas documentado na América Latina, afirmou Bonifaz.

- "Secando por dentro" -

Aos 46 anos, Florentina Loayza é ativista de sua própria causa. Raramente sorri. Usa chapéu e traz estampado em uma camiseta branca seu clamor por justiça.

Acompanhada por um punhado de mulheres, ela se postou em janeiro de 2025 em frente à sede do Ministério da Justiça, em Lima, para exigir "reparações integrais agora".

Em 1997, ela vivia em uma comunidade rural a 3.500 metros de altitude na região de Huancavelica, no sudeste do Peru. Havia menos de um ano tinha dado à luz seu primeiro filho quando aceitou ir ao centro de saúde recolher "provisões" oferecidas por funcionários do Estado.

Lembra que ela e outras indígenas foram amontoadas como "carneiros" em um caminhão. Ao chegarem, "as enfermeiras nos agarraram e prenderam na maca. Colocaram um soro em nós e não me lembro de mais nada". Quando acordou com uma ferida, informaram-lhe que foi operada "para não ter filhos".

Nem sua comunidade, nem seu companheiro acreditaram que ela havia sido operada contra sua vontade. Disseram-lhe que ela se submeteu à esterilização "por querer estar com vários homens". Foi deixada pelo marido e ela teve que emigrar para Lima, onde ganha a vida fazendo faxinas. Hoje, garante, sofre de dores intensas no ventre.

Fujimori sempre tachou as acusações de "falsas". Em uma decisão de 2023, a justiça peruana reconheceu que as "esterilizações involuntárias foram uma política pública".

E ordenou o Estado a indenizar as vítimas e garantir seu acesso a serviços de saúde, uma decisão que ainda não foi acatada.

Mais de 7.000 mulheres estão inscritas até agora no registro estatal que identifica as vítimas. Segundo o Ministério Público, ainda não há condenados e apenas 3.000 casos estão em investigação preliminar.

"Arrancaram a vida de mim", lamenta Florentina. Além de uma indenização, ela pede que o Estado peruano lhe dê acesso a um tratamento de saúde. "No rosto, parecemos bem, mas estamos secando por dentro", soluça.

- "Cicatriz interna" -

Na casa que divide com os quatro filhos, nos arredores de Lima, María Elena Carbajal mostra a única foto que guarda de sua última gestação antes de ser esterilizada, aos 26 anos.

Ela deu à luz em um hospital público da cidade. Segundo seu relato, os médicos lhe disseram que se quisesse ver novamente seu bebê, deveria se submeter a uma "laqueadura de trompas", pois a criticaram porque "tinha muitos filhos". Aterrorizada, aceitou.

Encurvada de dor, ainda no hospital, com o recém-nascido nos braços, contou o ocorrido ao seu marido. Ele tampouco acreditou nela quando disse que tinha sido operada contra sua vontade. "Eu me sentia culpada pelo que havia acontecido; (de) que meu esposo tivesse me deixado".

Ela seguiu sozinha com seus quatro filhos. Assim como Florentina, ganhou a vida limpando casas. Anos depois, precisou se tratar de um déficit hormonal provocado pela esterilização.

Além da visível, "está a cicatriz interna", a do "abandono das nossas famílias".

Aos 55 anos, ela chefia uma organização de mulheres vítimas da "política pública". Em 2021, enquanto participava de um ato de protesto, foi agredida por um grupo de extrema-direita alinhado ao fujimorismo identificado pelo Poder Judiciário.

Desde então, convive com uma dolorosa lesão na coluna, pela qual espera há dois para ser operada.

"Este silêncio (...) começa pelo Estado, que nunca pediu perdeu a estas mulheres", assinala María Esther Mogollón, assessora de uma organização que reúne cerca de 3.000 vítimas em nível todo o Peru.

Y.El-Kaaby--DT